Revista Eletrônica Musicaudio

Revista Eletrônica MUSICAUDIO

segunda-feira, 5 de março de 2012

14 verdades incômodas sobre o áudio analógico e digital

#1: Uma gravação digital e uma analógica soam de forma diferente. Talvez o X da questão esteja em saber se essa diferença é melhor ou pior. Gravar em analógico é caro e complexo: requer bons músicos (algo não muito fácil), máquinas em perfeito estado de manutenção (algo caro e pouco justificável), e fita (também muito caro). Gravar em fita tem certas características musicais desejáveis (por exemplo, a compressão, a distorção e o colorido que agrega, especialmente na bateria e no baixo), mas pouco justificáveis em 99% dos casos. Ultimamente tem existido um "revival" com os plugins simuladores de fita que devolvem esse colorido, mas…
#2: Os efeitos digitais de simulação de distorção não soam iguais que os analógicos. Dito isso, uma versão digital bem feita é praticamente indistinguível, mesmo que requeira de grandes quantidades de processamento, e essas diferenças são inclusive menos notórias numa mixagem. Veja esse artigo na revista Electronic Musician (http://www.emusician.com/techniques/0768/showdown-at-the-clubhouse--amp-software-vs-amps/141292) onde engenheiros/produtores/guitarristas diferenciam uma guitarra processada digitalmente do som do amplificador simulado. O resultado somente pode ser diferenciado em 38.5 % dos casos, ou seja, indistinguível.
#3: Os filtros digitais não soam iguais aos analógicos. Graças ao meu gosto por sintetizadores, tenho uma boa coleção de instrumentos analógicos e digitais que permite filtragem de sinais externos e também alguns filtros externos e cada um com seu colorido único. Por outro lado, tenho a maioria dos plugins de filtragem disponíveis e dificilmente têm a mesma característica, o que me força a complementá-los com saturação ou distorção.
#4: Pro Tools é o padrão mundial para intercambio de sessões. Não é a fita, não é o Nuendo, nem o Logic, nem Cakewalk e não depende do país em que você esteja. Apesar de ser um fã adorador do Nuendo (no Mac), sempre tenho o Pro Tools à mão e sei que ele me acompanhará ainda por muito tempo. Então, se você deseja entrar de verdade no mundo do áudio é de suma importância saber operar corretamente o Pro Tools.
#5: Uma mixagem a 96 Khz não soa como uma de 44.1 Khz. Muitos instrumentos musicais possuem conteúdo espectral fora da faixa de audição humana (estabelecida em 20 Hz-20Khz, e, mesmo que existam pessoas que podem chegar a 25-30 Khz, a grande maioria não supera os 18Khz). São frequências que, ainda que possam perceber auditivamente, muitos afirmam que  se pode sentir corporalmente. Segundo Nyquist, para representar digitalmente uma faixa de frequências, temos que usar uma frequência de amostragem que multiplique por 2 o valor mais alto, o que nos dá 40 Khz, ou, de acordo com o desenvolvedor de conversores Dan Lavry 70 Khz (que para ele é a frequência ótima de amostragem). Na teoria, 44.1 Khz deve ser suficiente, mas temos que considerar a filtragem necessária nos conversores. Trabalhar a 88.2/96 Khz torna com que isso seja menos óbvio que a 44.1 Khz, além de aumentar consideravelmente a largura de banda. Trabalhar nessas frequências de amostragem tão altas faz com que o processamento digital requeira de, pelo menos, duas vezes mais processo. Tampouco os efeitos e sintetizadores atuam igualmente em altas frequências, sendo comum ver como 88.2 e 96 Khz geram menos "aliasing". Conscientes disso, alguns fabricantes usam "oversampling" para melhorar sua resposta em frequências mais humanas. Por outro lado a maior parte do legado musical clássico foi gravado em fita e processado com equipamento analógico que não era característico, precisamente, nem por suas taxas de baixo ruído, nem por sua grande largura de banda, o que faz com que o ouvido humano se sinta muito à vontade sem esse brilho extra. Na minha opinião, a diferença sonora não justifica a sobrecarga de processamento (sobretudo porque em 99% dos casos costuma-se filtrar os sons tanto acima como abaixo), sendo assim quase sempre trabalho em 44.1/48 Khz  e 24 bits, usando usando uma mistura de hardware externo e software de alta qualidade.
#6: Usar dithering não faz o áudio soar melhor. Em alguns foruns sobre áudio profissional de língua inglesa se tem feito muitos testes e a surpresa aconteceu quando a maioria das pessoas preferia o áudio sem efeitos de dithering aplicado. O que nos faz recordar o princípio do áudio profissional:
#7: Se está soando bem, então está tudo bem. sem nenhum discussão aqui.
#8: A presença de uma válvula não garante que afete o som. As válvulas requem alta voltagem para desenvolver seu verdadeiro colorido. O fato de um equipamento ter um led iluminado indicando válvula não significa que algo esteja sendo incorporado no som.
#9: Uma mesa de mixagem analógica não soa igual que a soma digital de qualquer software. A diferença somente é óbvia quando se força os níveis, mas aposto apostaria que ninguém é capaz de distinguir uma mixagem numa mesa digital de uma analógica, caso a mix tenha sido feita corretamente. Roger Nichols, e um dos mais respeitados engenheiros de som dos últimos anos, declarava abertamente isso na revista inglesa Sound On Sound (http://www.soundonsound.com/sos/jun06/articles/rogernichols_0606.htm). 
#10: A maioria dos equalizadores digitais soam iguais. Sim, esta é outra verdade que vai surpreender muitos. No âmbito digital somente existem três tipos de equalizadores: paramétricos (PEQ), paralelos e de fase linear. 99% dos EQ digitais, desde os incluídos no Cakewalk até o mais exotérico da Softtube, são do tipo PEQ, ou, em alguns casos, do tipo PEQ+algo, onde esse algo pode se algum algoritmo de saturação. A única diferença notável entre eles é a forma de gerenciar as faixas, Q e inclusive a interação entre bandas e parâmetros, o que faz com que muitos não sejam diretamente equivalentes. Devo possuir uns 40 plugins de EQ e no final acabo usando 4 ou 5 que, pelo seu algo extra ou sua configuração particular das bandas, são melhores para o resultado final que busco. Mas você não precisa acreditar cegamente em mim: eis alguns gráficos e mais informação em http://rhythminmind.net/1313/?p=361.
#11: A soma digital em TODOS os programas de mixagem é idêntica, menos as baseadas em DSP externo. Isso já chegou à discussões acaloradas em alguns foruns: alguns dizem que o Samplitude soa melhor que o Cakewalk, outros que o Pro Tools HD, e outros o Nuendo. No domínio digital, a soma dos sinais é isso mesmo, uma soma, e não tem outra forma de fazer isso. A maior diferença está no manejo dos números e nisso temos duas tendências: ponto flutuante e inteiros. Não irei me aprofundar, visto que muitos não têm conhecimentos avançados de matemática, mas resumindo, as DAW que funcionam em ponto flutuante (todas menos as que usam hardware externo para somar, como Pro Tools HD/TDM ou alguma versão do Pyramix) têm resolução praticamente infinita em cada canal EXCETO no master, que está limitado pela resolução do motor de áudio (tipicamente 32 bits inteiros). Isso significa duas coisas: que o áudio somente vai saturar no master e que TODOS os motores de soma são iguais. Nos sistemas baseados em DSP isto se faz com números inteiros, no caso do Pro Tools 48 bits, ainda que isto tenha sido alterado na nova versão.
#12: Uma mixagem ITB (in the box=100% digital) pode ser tão boa como uma OTB (out of the box=analógica ou híbrida). Para um dono de estúdio analógico que investiu milhares de reais em equipamentos analógicos essa afirmação pode fazer com que ele xingue a sua mãe, mas hoje em dia as ferramentas disponíveis digitalmente permitem desenvolver mixagens com a mesma "calidez", "profundidade" e qualquer outra palavra que queira usar para descrever uma mixagem analógica. A grande diferença é que…
#13: Conseguir que uma mixagem ITB soe como uma OTB requer MUITO mais esforço e talento. Como comentei antes, a sonoridade dos discos de nossa infância (isso serve para aqueles com mais de 20 anos de idade) é analógico e é o que temos em nosso DNA musical. Um sistema digital puro ou híbrido sem somador não possui uma sonoridade definida: isso é bom porque podemos conseguir o matiz que quisermos, mas isso requer muita experiência do engenheiro, porque…
#14: Não existe plugin ou equipamento analógico que vá fazer com mixemos melhor, porque, infelizmente a qualidade das mixagens depende do talento e da experiência e o talento não é tão abundante e a experiência só se consegue com anos de trabalho duro.

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